DesaFrio Urubici - 52 km

Urubici (SC), 22 de Junho de 2013. O vento sibilava entre as persianas da janela fazendo os vidros vibrarem. Os galhos das árvores riscavam o telhado em um ritmo descompassado.


Eram 4h30min da madrugada.

Neste instante acordei.




Em seguida, quando lembrei que dentro de 3 horas estaria largando para um prova de 52km, uma sensação fugaz de frio na barriga devido a liberação de adrenalina, tomou o meu corpo.

As 6h levantei para tomar um banho. O vento havia diminuído. Na cozinha da pousada, o café já estava na mesa. Tentei comer apenas o que havia levado mas não resisti e experimentei um omelete, rs.

Saímos em direção ao centro de Urubici e a partir desse momento o tempo passou muito rápido. Quando chegamos, a energia do pessoal fez esquecer o frio. Fiz o check-in e entrei no curral da largada onde eu e aproximadamente 400 corredores, largamos pontualmente as 7h30min.

Nos meses que antecederam a prova, estava preocupado com os 27km de subida até o CINDACTA II, o ponto de retorno a 1826 m de altitude. Preocupado pelo fato de não saber qual seriam as sensações e as dores que sentiria. Estava confiante que os 25km de descida seriam mais tranquilos.

Nas trilhas observei a diferença de correr com um tênis apropriado para esse percurso. Errei na escolha. Corri com um tênis de asfalto, leve, com bom amortecimento, mas sem nenhuma tração, liso que nem "jundiá ensaboado". Escorreguei muito. Procurava sair da argila molhada devido as chuvas que despencaram nos dias anteriores; e quando procurava os trechos de grama ou vegetação, escorregava por estarem molhados do orvalho e da névoa que ainda persistia naquela hora da manhã.

No km 18,5, quando cheguei no asfalto, decidi não trocar de tênis. Sem a proteção das árvores e da vegetação, o vento diminuía a sensação térmica, fazendo com que a ponta dos dedos das mãos, mesmo com luvas, ficassem congeladas. Os dedos dos pés já estavam insensíveis devido ao frio e aos tropeços - no final da prova observei que uma unha do pé se soltou, outra ficou preta e uma terceira rachou ao meio.

Na subida ultrapassei alguns corredores, estava me sentindo bem. Quando avistei o CINDACTA II, foi um alívio. Estava bem, estava feliz, sentia as dores que já conhecia. Estava contente em completar os primeiros 27 km de subida em 3h35min, a descida seria melhor.

Seria.

Ledo engando. 

Foram os mais longos 25 km que percorri. A descida exigiu muito dos músculos e principalmente das articulações. Já no km 29, as dores no joelhos começaram, alguns espasmos nas panturrilhas apareceram e eram amenizadas com o aerosol Salonpas, que levei junto ao cinto de hidratação, ( li no blog do ultramaratonista   Jorge essa dica, obrigado Jorge).

Chegou um momento em que cada passada era sentida pelo corpo inteiro em um único impacto. Parecia não haver amortecimento no tênis, nas articulações e nem nos músculos das pernas. 

Quando sai do asfalto e retornei à trilha, outro alívio. O impacto que antes sentia no concreto diminuiu. 

Diminui o meu ritmo para não me lesionar. Vários corredores bem mais preparados e num ritmo bem melhor, me ultrapassaram. Nessa hora o psicológico bate. Bate dizendo que você esta em último colocado.

Nesse instante lembrei que o mais importante era completar a prova bem. O meu único adversário era eu mesmo.

E assim foi. Eu queria apenas chegar.

Completei a prova em 6h49min. 

Fiquei feliz! Mais uma vez aprendi que independente da distancia que conseguimos correr, seja 1km, 5km ou 10km, todos somos capazes, porque somos do tamanho de nossos sonhos. 

Ano que vem eu volto, para me desafiar novamente.





A chegada... foi assim.

O café na Pousada Beckhause.

 Os primeiros quilômetros na estrada.

Em alguns pontos... havia uma ponte.

A Cascata Véu da Noiva de 25m... no local, cabanas e um restaurante.

Uma das trilhas... em direção ao CINDACTA II.

O CINDACTA II ao fundo... alívio ao avistá-lo.

O começo da descida e o fim da alegria.


Depois de alguns tropeços e quedas... além do barro...


...o resultado!


A chegada.

O percurso.


Comentários

  1. Parabéns ultra Marcelo!

    Gostei do relato e deu para sentir um pouco das suas emoções...

    Abs

    Fábio
    www.42afrente@blogspot.com

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    1. Obrigado pela visita Fábio,

      Fiquei preocupado com as dores nos joelhos, para evitar uma lesão, precisei ter paciência e por alguns kms, dar um passo após o outro com bastante cuidado.
      Boa recuperação e bons treinos.

      Abraços.

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  2. Caramba, Marcelo. Essa prova dever ter sido complicada demais. Eu ainda não tenho coragem para um Desafrio desse. Parabéns pela superação. És um vencedor. Muito emocionante o seu relato. Acho muito legal entender como as pessoas se sentem durante a corrida e como se motivam, ainda mais em uma prova desse porte. Depois dessa, as maratonas vão ficar facinhas....rs. Parabéns mesmo pela grande conquista. Abração.

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    1. Mais uma vez obrigado Eduardo!
      Os teus relatos também nos fazem sentir na prova. Aprendi com você. Esse ano vou diminuir o numero de provas e me concentrar nas provas longas. As provas estão ficando muito caras e somando estada, transporte, etc... fica pesado, rs. Ainda preciso de mais volume nos treinos para chegar a um sub 4h na maratona, rs.
      Nos encontramos nas largadas.

      Um forte abraço,

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  3. Que Ironman que nada Marcelo.
    Isso sim é prova pra macho rs.
    Um dia terei coragem de encarar também.

    Abraço

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    1. Não... os 52km não chegam nem perto, rs. No iron, todos os músculos do corpo humano e o psicológico são postos à prova, rs.
      Você completaria na boa essa prova! Muito bom o seu tempo na Volta da Lagoa.
      Abraços.

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  4. Espectáculo Marcelo , muitos parabéns !!

    belo relato da prova e dos pensamentos que nos atravessam a cabeça :)

    ...quando dizes "O meu único adversário era eu mesmo" , comigo é sempre assim , nunca olho para trás numa prova , nem nunca "sprinto" para passar o companheiro da frente :) , a minha competição é com as minhas capacidades físicas e mentais :)

    muitos parabéns mais uma vez !

    abraço
    Artur B

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    1. Obrigado Artur,

      Boa observação, estamos sempre buscando ser melhor a cada prova, tentamos nos vencer, rs... e um minuto a menos é uma grande vitória.

      Bons treinos.

      Abraços.

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